Homenagens

Contributos para a História do

Museu de Agricultura de Fermentões

Uma Comunidade envolvida no desenvolvimento local

Antecedentes

Podemos afirmar que, na verdade, a integração da Freguesia de Fermentões, na área da Casa do Povo de Taipas, com a criação de uma sua Delegação, na Freguesia de Fermentões, precisamente a cargo do Centro Cultural e Recreativo de Fermentões, em 1973, foi um passo de gigante para as novas dinâmicas de desenvolvimento que vieram a conseguir-se, na Comunidade de Fermentões, na Cidade de Guimarães.

É certo, e não deve ser esquecido, que o Centro Cultural e Recreativo de Fermentões se organizou, e se desenvolveu, a partir do Grupo Cénico que existia, em Fermentões, associado à Paróquia, desde, pelo menos, o ano de 1950, com o apoio do Pároco, o Padre João Fernandes Machado, e que era dirigido pelo saudoso José Francisco do Nascimento Coutinho Brandão, o “Senhor Coutinho” como era, aliás, carinhosamente conhecido entre a População.

Neste contexto, correndo o risco de não evidenciar, aqui, todos quantos estiveram envolvidos, e comprometidos, no processo da organização do Centro Cultural e Recreativo de Fermentões, parece oportuno referenciar, entretanto, alguns deles, nomeadamente: o José António Sá Abreu, o José da Silva Leite, o José Carlos de Freitas, o José da Costa Oliveira, o Jerónimo Francisco Ribeiro, o Fernando da Costa Mendes, o José Batista, o Jerónimo José Ribeiro da Costa, o António Faria, o Adão Pinto, e o Manuel Ferreira.

Foram momentos interessantes os, então, vividos em Fermentões, uma Comunidade que entendeu organizar-se para os novos desafios do desenvolvimento que se sentiam, como necessários, sobretudo tendo em consideração o que se passava, quer com os problemas resultantes de uma guerra colonial, quer com a emigração de operários e agricultores, para Países Europeus, como a França, a Alemanha e a Bélgica.

E a “Festa do Emigrante de Fermentões” era, então, uma oportunidade, também, o reencontro familiar, para o conhecimento de novas experiências em Países de Emigração, para a apreciação do Movimento Associativo, em que os nossos emigrantes se envolviam, nas Comunidades de Acolhimento.

A recolha de Alfaias Agrícolas, junto dos Agricultores

Estávamos, então, no início da Década de 1970, quando o Governo de Marcelo Caetano abria algumas oportunidades, designadamente o acesso dos Agricultores e dos Trabalhadores Rurais às “regalias sociais”, com destaque para o Abono de Família, o Subsídio de Aleitação, e a oportunidade de uma Reforma, para quem nunca, antes, tinha feito quaisquer descontos, mas que poderiam passar a descontar através da Casa do Povo da área da sua Residência.

Em Fermentões, nessa altura, não havia uma Casa do Povo. E, por outro lado, a Freguesia não estava integrada numa Casa do Povo.

Foi, então, e neste contexto, que o Centro Cultural e Recreativo, com o seu dinamismo, nomeadamente com o seu Grupo de Teatro, conseguiu o apoio da Missão de Acção Social de Braga, para que, numa primeira fase, a Freguesia de Fermentões fosse “integrada” na área da Casa do Povo das Caldas das Taipas, com uma Delegação em Fermentões.

Assim, alguns dos jovens do Centro Cultural e Recreativo assumiram a missão de, aos fins-de-semana, visitarem os agricultores da freguesia de Fermentões, em processo de informação sobre a oportunidade de adesão a sócios da Casa do Povo das Taipas, para poderem passar a ter benefícios sociais destinados aos Agricultores e aos Trabalhadores Rurais, o que foi conseguido com sucesso.

E, na verdade, quando encontravam peças e utensílios da lavoura em situação de abandono, os jovens solicitavam-nos, aos respetivos proprietários, para que, depois, quando surgisse uma oportunidade, os mesmos pudessem integrar uma Exposição de Antiguidades Agrícolas.

Com o dinamismo social, cultural e recreativo que o Centro Cultural foi criando, na Freguesia de Fermentões, foi possível sensibilizar a Missão de Acção Social, no sentido de que fosse criada uma Casa do Povo, na Freguesia de Fermentões.

O que veio a acontecer, na verdade, em 29 de Janeiro de 1977.

A Casa do Povo de Fermentões herdou, então, toda a dinâmica que vinha sendo desenvolvida pelo Centro Cultural e Recreativo e Fermentões.

As Exposições de Antiguidades Agrícolas integradas na Festa do Agricultor

Entretanto, a Junta Central das Casas do Povo decidiu motivar as Casas do Povo existentes em Portugal a promoverem, ano a ano, uma iniciativa subordinada ao tema central “O Dia da Casa do Povo”.

A Casa do Povo de Fermentões não hesitou e decidiu, então, promover a I Festa do Agricultor de Fermentões, com um ambicioso programa que decorreu entre o dia 9 e o dia 18 de Setembro de 1977.

E, nesse mesmo Programa, foi integrada a “I Exposição de Antiguidades Agrícolas de Fermentões”, precisamente com o material que foi sendo possível obter, junto dos nossos Agricultores, desde 1973.

Deve ser evidenciado, também, que a organização da Exposição de Antiguidades Agrícolas, à altura, foi acarinhada, e apoiada, pela então Directora do Museu Alberto Sampaio, Drª Maria João Vasconcelos, bem como pelos Membros da Direção da Biblioteca Gulbenkian de Guimarães, a que Presidia o Senhor Joaquim Fernandes, e de que faziam parte, também, o Professor Fernando Capela Miguel, o João Melro, e o Domingos Fernandes, trabalho a que se associou, também, o Jerónimo Ferreira, a convite da Directora do Museu Alberto Sampaio.

Esta primeira Exposição concretizou-se, efetivamente, numa das salas da então escola primária, no âmbito do Programa da Festa do Agricultor de Fermentões, e a verdade é que foi de total sucesso, para todos, mesmo para os anteriores proprietários de cada uma das peças expostas, os agricultores que as haviam cedido, longe de pensarem no destino que as mesmas viriam a ter.

Em Setembro de 1978, já sob a coordenação do Jerónimo Ferreira, realizou-se a II Exposição de Antiguidades Agrícolas, no âmbito do Programa da Festa do Agricultor de Fermentões/78.

Entretanto, após acordo celebrado entre a Casa do Povo de Fermentões, e a Junta de Freguesia de Fermentões, no dia 20 de Setembro de 1982, com o apoio da Câmara Municipal de Guimarães, começaram as obras de beneficiação, e de adaptação, do antigo edifício da Escola Primária do Motelo, para nele ser instalado o Museu de Alfaias Agrícolas de Fermentões.

Na sequência de todas estas movimentações, a Direção da Casa do Povo tomou, então, a decisão de nomear uma Comissão Organizadora do Museu, constituída por Jerónimo Ferreira, José da Costa Oliveira, Fernando Mendes e José Atilano

E, então, ano a ano, integrada na Festa do Agricultor de Fermentões, no sábado que antecede o primeiro domingo de Setembro, o Museu promoveu, sempre, uma Exposição de “Antiguidades Agrícolas”, tendo a II Exposição ocorrido em Setembro de 1978, bem como nos anos seguintes, sempre integradas, também, na Festa do Agricultor de Fermentões, e, sempre, na verdade, com um sucesso elevado, tanto foi o entusiasmo que provocou entre os nossos Agricultores e a População em geral. Iniciativa que, em 2017 se realizou, no âmbito das Comemorações do 40º Aniversário da Casa do Povo de Fermentões.

Quintas e Propriedades Agrícolas da Freguesia de Fermentões, e seus
Caseiros, aquando da criação da Casa do Povo em 1977

De acordo com documentos existentes no Museu, e com base num levantamento efetuado em 1978, foram identificadas as seguintes Quintas Agrícolas, bem como os Agricultores, em cada uma delas, residentes, à altura:

            – Quinta dos Moinhos – Manuel António Pereira

            – Quinta da Chamusca – Francisco de Freitas

            – Quinta do Penedo – Joaquim Fernandes

            – Quinta de Mataduços – João Pereira

            – Quinta do Quintal – António da Silva

            – Quinta da Ribeirinha – António Ribeiro

            – Quinta da Conceição – António Pereira

            – Quinta do Pinheiro – José António Costa

            – Quinta de Fervenças de Cima – José da Cunha

            – Quinta de Fervenças de Baixo – Manuel Francisco

            – Quinta da Quinta Nova – Francisco Ribeiro

            – Quinta de Torpecido – João Rodrigues

            – Quinta da Covilhã de Baixo – Joana Salgado

            – Quinta da Covilhã de Cima – José António Costa

            – Quinta de Selho de Baixo – Albino Araújo Pereira

            – Quinta de Selho de Cima – Joaquim Pereira Francisco

            – Quinta de Penaçol – Domingos Ribeiro

            – Quinta da Igreja – João de Araújo Salgado

            – Quinta de Lemos de Cima – António Mendes Pereira

            – Quinta de Almançor – Manuel Cardoso

            – Quinta de Loureiro Velho – Jerónimo da Silva Pereira

            – Quinta de Loureiro Novo – António Cardoso

            – Quinta da Sertã – José da Silva (Mau)

            – Quinta das Quintás de Cima – José Ribeiro de Abreu

            – Quinta das Quintás de Baixo – Jacinto de Castro

            – Quinta da Lage de Cima – João Pinheiro da Silva

            – Quinta da Lage de Baixo – Francisco Mendes

            – Quinta das Abelhas – José Batista

            – Quinta de Tóriz – Jaime Dias Ferreira

            – Quinta das Cãos de Cima – Afonso Ribeiro Fonseca

            – Quinta das Cãos de Baixo – António de Freitas Teixeira

            – Quinta da Vinha – Jerónimo Gonçalves

            – Quinta da Bacoreira de Cima – José Mendes

            – Quinta da Bacoreira de Baixo – “sem caseiro”

            – Quinta do Bairro de Cima – Francisco Faria

            – Quinta do Bairro de Baixo – Domingos Pinheiro da Silva

            – Quinta da Pereira – Alberto Ribeiro de Abreu

            – Quinta do Souto – Domingos da Silva

            – Quinta do Paço de Cima – Joaquim Fernandes

            – Quinta do Paço de Baixo – José Gonçalves

            – Quinta de Minotes de Cima – Joaquim da Silva Ribeiro

            – Quinta de Minotes de Baixo – Domingos da Silva Martins

            – Quinta de Sangens – “sem caseiro”

            – Quinta de Sezite – “sem caseiro”

            – Quinta da Várzea – Joaquim Ribeiro e Custódinha

            – Quinta de Caneiros (Major) – José da Silva

            – Propriedade de Lemos de Baixo – Manuel Pereira

            – Propriedade da Melreira – Manuel Pato

            – Propriedade do Esquerdo – Manuel Macedo e Rosa Ribeiro

            – Quinta da Aguça – Serafim de Castro

Casas Senhoriais – Solares

– Casa da Covilhã – Arq. Fernando Távora

– Casa de Caneiros – Família Major de Margaride

– Casa de Minotes – Dr. Augusto Ferreira

– Casa da Sertã – João Martins da Costa (Aldão)

Homenagem a Jerónimo Ferreira
Fundador, Organizador, e Director do Museu

Alguns dados pessoais

Jerónimo Ferreira nasceu, em Fermentões, em 10 de Novembro de 1928.
Filho de José Ferreira e Rosa Maria Leite, que, depois de terem vivido, no lugar de Selho, freguesia de Fermentões, construíram habitação, no lugar da Veiga.
O Pai, José Ferreira, era Carpinteiro Rural, e, quando ainda criança, o filho Jerónimo costumava acompanhá-lo, algumas vezes, quando ele ia trabalhar em Quintas Agrícolas, nomeadamente nas Quinta de Minotes, na Quinta do Paço, e na Quinta da Pereira, nesta Freguesia.
O Jerónimo Ferreira, como era costume, também, aprendeu a arte de carpintaria, com o Pai, numa Oficina de Carpintaria, no rés-do-chão da Casa onde viviam, no lugar da Veiga.
Mais tarde, o Jerónimo foi trabalhar, em Guimarães, na Oficina de Carpintaria do Pombeiro, no local onde, hoje, existe o Restaurante Pinguim, na Travessa do Picoto.
Casou com Emília Novais e tiveram seis Filhos.
O Jerónimo era, na verdade, um bom profissional de Carpintaria, especializando-se, nomeadamente, na arte de recuperação de “antiguidades”.
E o seu envolvimento foi de tal ordem que acabou por ser convidado, para Presidir ao Sindicato Nacional dos Operários da Construção Civil, de Guimarães, cargo que desempenhou, durante alguns anos, e onde deixou trabalho de grande relevância social.
Provavelmente, por isso mesmo, mais tarde, o Jerónimo Ferreira foi convidado, pela Directora do Museu Alberto Sampaio, Drª Maria Emília Amaral Teixeira, para ir trabalhar, como Funcionário, no Museu Alberto Sampaio, onde permaneceu algum tempo e onde tinha, como função principal, o trabalho de restauro de peças museológicas.
Entretanto, o Jerónimo foi convidado para ir assumir funções de Director Técnico da Oficina de Mármores, da Empresa A. Neves & Correia, que, à altura, existia na Avª Conde de Margaride, na Cidade de Guimarães, onde se manteve alguns anos, até passar à situação de Aposentado.
Mesmo durante os tempos em que trabalhava na Oficina de Mármores, o Jerónimo, por vezes, era convidado pelo Museu Alberto Sampaio, para lá ir, como Voluntário, fazer alguns serviços da sua “Arte de Restauros”.
E, em sua casa, onde habitava, o Jerónimo tinha, também, uma Oficina de Carpintaria, onde realizava alguns trabalhos de restauro, nomeadamente para o Senhor João Martins da Costa, da Casa de Aldão, amigo de Família.
É, assim, neste contexto, que, quando a Casa do Povo estava a organizar, já em 1977, a primeira Exposição de Alfaias Agrícolas, aquando da Festa do Agricultor de Fermentões, a Drª Maria João Vasconcelos, então, Directora do Museu Alberto Sampaio, que estava, juntamente, com o Senhor Joaquim Fernandes, Director da Biblioteca Gulbenkian, a apoiar-nos na respetiva organização, foi a Casa do Jerónimo, situada, precisamente, na parte de trás do Museu, e trouxe-o, para se envolver, também, na organização da Exposição que se estava a preparar.
O Jerónimo não foi capaz de dizer “Não”, à Drª Maria João, e, por isso, a partir daí, passou a assumir a coordenação das iniciativas da Casa do Povo de Fermentões, no que respeitava à ambição de, um dia, se poder ter um Museu de Agricultura de Fermentões, assunto que assumiu com entusiasmo, como todos nós sabemos!
E, assim, prosseguiram as Exposições de Alfaias Agrícolas, no âmbito do Programa da Festa do Agricultor de Fermentões, anualmente, até que, em 1983, após o Protocolo de cedência do “Antigo Edifício Escolar do Motêlo”, celebrado em 29 de Setembro de 1982, entre a Junta de Freguesia e a Casa do Povo de Fermentões, e após as primeiras obras de adaptação, já coordenadas pelo Jerónimo Ferreira, se iniciou a organização do que é, hoje, o Museu de Agricultura de Fermentões.
Convém evidenciar que, entretanto, o prestígio do Museu foi ultrapassando as fronteiras da nossa Freguesia e, então, foi sendo assegurada alguma cooperação, com outras Entidades, a nível regional, e a nível nacional, sendo de destacar, nomeadamente, os convites vindos da Câmara Municipal de Guimarães, para que o Museu assumisse a organização de algumas iniciativas, entre as quais o Cortejo do Linho, no âmbito dos Programas das Festas da Cidade e Gualterianas, sob a orientação do Jerónimo Ferreira.
E o Jerónimo Ferreira, coordenando a “Equipa do Museu”, esteve envolvido, também, em diversas iniciativas da Festa do Agricultor de Fermentões, nomeadamente, entre outras, na organização de Exposições, no Museu, alusivas à vida Rural, bem como na organização das primeiras iniciativas, fora do Museu, designadamente os “Cortejos do Linho” e os “Cortejos Etnográficos”.
O Jerónimo Ferreira era, na verdade, um interessado estudioso, nomeadamente em questões de direitos do trabalhador, de desenvolvimento social, e de dinâmicas nos assuntos da agricultura.
E era, na verdade, um Homem da Cultura, sendo Membro Fundador da MURALHA – Associação Vimaranense para a Defesa do Património.
Com data de 23 de Novembro de 1999, no âmbito de um trabalho realizado pelo Clube dos Amigos da Biblioteca da Escola E.B. 2/3 de Fermentões, o Jerónimo escreveu um texto, sobre o tema “O livro que mudou a minha vida”, de que se destaca: – “Ao longo da minha vida, que já não é curta, li diversos livros de diferentes autores ou escritores. Como não li muito, procurei sempre ler aquilo que me ajudasse a
aprender coisas novas, e que me possibilitassem a ajudar o mundo a ser cada vez melhor. Entre esses livros, lembro-me: “O crime de um homem bom”, de Nuno Montemor; “Emigração e crise no Nordeste Transmontano”, de Modesto Navarro; e “Sermões, Discursos e Poesia”, do Padre Gaspar Roriz.” E acrescenta, depois “… Mas o que mais gostei de ler ao longo da minha vida, foram os romances que não estão escritos (histórias) que são contadas por homens e mulheres que trabalham a terra da minha freguesia que é Fermentões. Desde o nascer do Sol, ao pôr-do-Sol, estes homens e mulheres contam histórias, ensinando aos mais novos, como se prepara a terra para semear o milho e centeio, para depois ceifar e daí fazer o pão. Fazem poemas, cantando enquanto trabalham. São estes os livros que não esqueci e que me ajudaram a mudar a minha vida”.
Entretanto, num livro editado pela Régie Cooperativa A Oficina, de uma “Entrevista com o Sr. Jerónimo Ferreira”, conduzida pelo Arq. Miguel Frazão, apraz-me transcrever, aqui, uma parte da entrevista.
Com efeito, respondendo a uma questão que lhe foi colocada pelo Arq. Miguel Frazão, “como e com quem aprendeu a arte de carpintaria?”, o Jerónimo respondeu, textualmente: – “Carpinteiro! Quando tinha os meus 10 anos e tal, 11 anos, fiz a 3ª classe, em Fermentões, num salão ali em Caneiros, ainda lá não havia a 4ª classe e o meu Pai queria que eu fosse para o seminário, mas eu não tinha vocação para aquilo e não fui. O meu Pai era carpinteiro rural, deslocava-se aos agricultores e fazia os carros de bois, fazia o que lhe pediam, fazia os arados, fazia tudo. Ele ainda tentou que eu não fosse para aquela profissão, mas eu gostava de ver o meu Pai, que foi um grande artista nesse ramo”.
O Jerónimo era, na verdade, um Artista na arte de trabalhar a madeira e, em sua casa, na Oficina de Carpintaria.
Voltando aos assuntos do Museu, sendo certo que, como se compreenderá, a decisão foi tomada pela Direcção da Casa do Povo, a verdade é que, sem o Jerónimo Ferreira, não teríamos, ainda hoje, na nossa Comunidade, uma riqueza, como a que podemos encontrar, no Museu de Agricultura de Fermentões.
E a Direcção da Casa do Povo, em tempo oportuno, teve o cuidado de entregar ao Jerónimo Ferreira, o Galardão FARRAMUNDANES, num merecido gesto de homenagem que lhe prestou.
Por sua vez, a Assembleia e a Junta de Freguesia de Fermentões, em sessão realizada em 13 de Dezembro de 2007, atribuiu, ao Jerónimo Ferreira, a Medalha de Ouro de Mérito Cultural.

Texto retirado, com adaptações, de “Museu de Agricultura de Fermentões”, de Manuel Ferreira.

Os Obreiros
Homenagem aos Obreiros Falecidos

Podemos afirmar que, na verdade, a integração da Freguesia de Fermentões, na área da Casa do Povo de Taipas, em 1973, com a criação de uma sua Delegação, na Freguesia de Fermentões, precisamente a cargo do Centro Cultural e Recreativo de Fermentões, foi um passo de gigante para as novas dinâmicas de desenvolvimento que vieram a conseguir-se, na nossa Comunidade.

Com efeito, este foi o passo necessário para que, à altura, os Agricultores e Trabalhadores Rurais da nossa Comunidade pudessem ter acesso a regalias e a benefícios sociais que, ao tempo, o Governo destinava, apenas, a freguesias que estivessem integradas numa Casa do Povo.

Evidenciam-se estes pormenores, porque, precisamente, quando decorriam conversações com a Missão de Acção Social de Braga, para integração do Centro Cultural e Recreativo de Fermentões na área da Casa do Povo das Taipas, foi organizado um Grupo de Cidadãos que, aos fins-de-semana, foram visitar os Agricultores, no sentido de os informar sobre a necessidade de se inscreverem, como sócios da Casa do Povo das Taipas, para poderem beneficiar das regalias sociais de que já beneficiavam outros rurais inscritos numa Casa do Povo.

Podendo correr o risco de não mencionar, aqui, todos quantos se envolveram, naquele “Grupo de Cidadãos”, indicam-se, entretanto, alguns deles, nomeadamente: o José António Sá Abreu, o José da Silva Leite, o José Carlos de Freitas, o José da Costa Oliveira, o Jerónimo Francisco Ribeiro, o Fernando da Costa Mendes, o Jerónimo Ribeiro da Costa, o António Faria, o Adão Pinto, e o Manuel Ferreira.

Na verdade, esse grupo de jovens, aos fins-de-semana, ia visitar os agricultores da freguesia de Fermentões e, quando encontravam peças e utensílios da lavoura, em situação de abandono, solicitavam-nos aos respetivos proprietários, para que, depois, quando surgisse uma oportunidade, os mesmos pudessem integrar uma Exposição de Antiguidades Agrícolas.

Com o dinamismo social, cultural e recreativo que o Centro Cultural foi criando, na Freguesia de Fermentões, foi possível sensibilizar a Missão de Acção Social, no sentido de que fosse criada uma Casa do Povo, na Freguesia de Fermentões.

O que veio a acontecer, então, em 29 de Janeiro de 1977.

A Casa do Povo de Fermentões herdou, então, toda a dinâmica que vinha sendo desenvolvida pelo Centro Cultural e Recreativo e Fermentões.

Entretanto, a Junta Central das Casas do Povo decidiu motivar as Casas do Povo existentes, em Portugal, a criarem “O Dia da Casa do Povo”.

A Casa do Povo de Fermentões não hesitou e decidiu, então, promover a I Festa do Agricultor de Fermentões, com um ambicioso programa, que decorreu entre o dia 9 e o dia 18 de Setembro de 1977.

E, nesse mesmo Programa, foi integrada, então, a “I Exposição de Antiguidades Agrícolas de Fermentões”, precisamente com o material que fomos conseguindo obter, junto dos nossos Agricultores, desde 1973.

Deve ser evidenciado, também, que a organização da Exposição de Antiguidades Agrícolas, à altura, foi acarinhada, e apoiada, pela então Directora do Museu Alberto Sampaio, Drª Maria João Vasconcelos, bem como pelos Membros da Direção da Biblioteca Gulbenkian de Guimarães, a que Presidia o Senhor Joaquim Fernandes, e de que faziam parte, também, o Professor Capela Miguel, o João Melro, e o Domingos Fernandes.

Esta primeira Exposição concretizou-se, efetivamente, numa das salas da então escola primária, no âmbito do Programa da Festa do Agricultor de Fermentões, e a verdade é que foi de total sucesso, para todos, mesmo para os anteriores proprietários de cada uma das peças expostas, os agricultores que as haviam cedido, longe de pensarem no destino que as mesmas viriam a ter.

Em Setembro de 1978, já sob a coordenação do Jerónimo Ferreira, realizou-se a II Exposição de Antiguidades Agrícolas, no âmbito do Programa da Festa do Agricultor de Fermentões/78.

O mesmo tendo acontecido, nos anos seguintes.

Entretanto, após acordo celebrado entre a Casa do Povo de Fermentões, e a Junta de Freguesia de Fermentões, no dia 20 de Setembro de 1982, com o apoio da Câmara Municipal de Guimarães, começaram as obras de beneficiação, e de adaptação, do antigo edifício da Escola Primária do Motelo, para nele ser instalado o Museu de Alfaias Agrícolas de Fermentões.

Na sequência de todas estas movimentações, a Direção da Casa do Povo tomou, então, a decisão de nomear uma Comissão Organizadora do Museu, constituída por Jerónimo Ferreira, José da Costa Oliveira, Fernando Mendes e José Atilano.

E, já por proposta desta Comissão Organizadora, a Direção da Casa do Povo decidiu que o Museu passasse a designar-se por Museu da Agricultura de Fermentões.

Após a conclusão das obras, as novas instalações do Museu de Agricultura de Fermentões foram, solenemente, inauguradas, no dia 3 de Setembro de 1983, numa cerimónia integrada na Festa do Agricultor de Fermentões/1983.

A Direção da Casa do Povo nomeou, então, o Jerónimo Ferreira para exercer funções de Director do Museu.

Funções que o Jerónimo Ferreira exerceu, com enorme dedicação, até fins de Dezembro de 2014.

Fermentões, 16 de Maio de 2015. Nota: – Este texto foi extraído, devidamente adaptado, de “Contributos para a História do Museu de Agricultura de Fermentões”, de Manuel Ferreira.

Padre João Fernandes Machado

João Fernandes Machado, filho de António Machado e de Delfina Rosa Fernandes, nasceu em 1 de Outubro de 1911 na Freguesia de Coucieiro, Concelho de Vila Verde e faleceu em 14 de Julho de 1965 na Freguesia de Fermentões, Concelho de Guimarães, onde está sepultado. Por não ter deixado quaisquer bens terrenos, os gastos do funeral, e o próprio jazigo, foram suportados pela população de Fermentões.

Frequentou a Escola primária de Coucieiro, Concelho de Vila Verde, e estudou no Seminário arquidiocesano de Braga, sendo ordenado sacerdote a 15 de Agosto de 1936. Foi pároco das freguesias de Souto e de Guilhadeses, ambas do concelho de Arcos de Valdevez, entre 1936 e 1941. A partir de 1941, e até à sua morte, em 1965, foi pároco de Santa Eulália de Fermentões, Concelho de Guimarães, acumulando, também, entre 1941 e 1945, a mesma função em Azurém e Pencelo.

Nascido numa freguesia rural e oriundo de uma família simples e humilde – o pai era pedreiro e a mãe doméstica – cedo se começou a preocupar com as dificuldades que os seus paroquianos sentiam. Em ocasiões de acontecimentos trágicos, o Pároco Machado fazia tudo para minorar o sofrimento das vítimas, como foi o caso, por exemplo, do incêndio no Bairro da Cola, em Setembro de 1959, que atingiu oito casas. O Padre Machado, depois de, praticamente, ter esvaziado a sua residência paroquial, foi, de empresa em empresa, angariar os bens indispensáveis às famílias atingidas.

Era exigente com os poderes instalados, de que é um bom exemplo o ofício dirigido à Câmara Municipal de Guimarães, em Junho de 1952, pedindo para ser retirado todo o material escolar que se encontrava no edifício (atual Museu), pois o mesmo já tinha sido ocupado há cinco meses sem que a Comissão Fabriqueira tivesse recebido qualquer renda. Ao lado dos mais necessitados, ajudava-os a ultrapassar os tempos difíceis que então se viviam, ora deixando alguma nota “esquecida” em casa dos doentes que visitava, ora solicitando apoio financeiro à Câmara Municipal de Guimarães, para pagamento de despesas de internamento hospitalar de algum paroquiano, como foi o caso exarado em ata da sessão de 30 de Maio de 1951 da Câmara Municipal de Guimarães, e que se transcreve:

“Padre João Fernandes Machado, a pedir a comparticipação em cinquenta por cento das despesas provenientes do internamento de (…), na Casa de Saúde do Bom Jesus – Nogueiró, assumindo o requerente a responsabilidade pelo pagamento dos restantes cinquenta por cento das despesas. A Câmara ficou inteirada e deliberou conceder a comparticipação solicitada”.

Para além do exercício do múnus sacerdotal, o Padre Machado estendeu a sua ação, também, às áreas da educação e instrução, tendo sido o grande obreiro da construção de um edifício destinado a Escola primária no final da década de 40 e inícios dos anos 50 do século XX. Este edifício serviu o ensino primário em Fermentões desde Janeiro de 1952 até meados do ano letivo de 1980/1981, tendo, de seguida, beneficiado de obras de restauro e adaptação para nele ser instalado o Museu de Agricultura de Fermentões, facto que veio a acontecer em Setembro de 1983. O edifício foi mandado construir pela Corporação Fabriqueira da Freguesia de Santa Eulália de Fermentões, então presidida pelo Padre João Fernandes Machado, e vendido à Câmara Municipal de Guimarães por escritura de 6 de Agosto de 1953, pelo preço de cento e trinta mil escudos.

Acolheu na residência paroquial, durante algum tempo, o ex-seminarista José Francisco do Nascimento Abreu Coutinho Brandão que, entretanto, e já como funcionário da Câmara Municipal de Guimarães, viria a ser um importante agente do desenvolvimento social e cultural da Freguesia, tendo criado e orientado, designadamente, o Grupo de Teatro e o Grupo Coral. O Senhor Coutinho, como carinhosamente era tratado pelo povo, foi, também, o fundador e o grande impulsionador do escutismo, em Fermentões, factos que influenciaram, positivamente, a vida da população da Freguesia, nomeadamente dos jovens.

Muitos dos jovens que se formaram, aprenderam e conviveram com o Padre Machado e com o Senhor Coutinho envolveram-se, ativamente, a partir do Grupo de Teatro, na vida social, cultural e recreativa, criando, então, a partir de 1963, o Centro Cultural e Recreativo de Fermentões, que, mais tarde, já em Janeiro de 1977, viria a dar origem à Casa do Povo de Fermentões. Podemos afirmar, seguramente, que a ação do pároco, até meados dos anos de 1960, foi decisiva para que tal acontecesse.

Muitos anos após o seu falecimento, a autarquia local reconheceu o seu trabalho e dedicação em prol da comunidade e, em 21 de Março de 1982, por proposta elaborada por uma comissão eleita pela Assembleia de Freguesia de Fermentões, foi deliberado, por essa mesma Assembleia, atribuir o nome do Padre João Fernandes Machado à Avenida que, do Largo da Casa do Povo, sobe até à Igreja Paroquial, tendo a Câmara Municipal de Guimarães, em 27 de Outubro de 1982, votado favoravelmente esta proposta.

Nota: Este texto foi extraído e adaptado do documento “Padre João Fernandes Machado – Breve Biografia”, de Apolinário Teixeira.

Homenagem Dr. Rui Mesquita de Freitas Oliveira

Introdução
A Casa do Povo de Fermentões foi fundada em janeiro de 1977 e, em setembro desse ano, promoveu a primeira Festa do Agricultor, cujo programa incluía uma “Exposição de Antiguidades Agrícolas”. Este evento decorreu na Escola Primária do Motelo e repetiu-se nos anos seguintes.
Entretanto, foi construído um novo edifício escolar e, após obras de adaptação do antigo edifício, foi o Museu de Agricultura de Fermentões aí instalado e inaugurado em 3 de setembro de 1983, cujo acervo tinha começado a ser recolhido, junto dos agricultores, por volta do ano de 1973.
Entre muitas outras iniciativas, o Museu de Agricultura de Fermentões tem organizado algumas exposições temporárias, nomeadamente de pintura, fotografia, trajes, bordados e olaria, precisamente para envolver a população e amigos do museu, possibilitando o encontro com as suas memórias e, assim, dar sentido concreto ao pensamento de Hugues de Varine1: “Um museu normal tem um objetivo oficial: servir o conhecimento e a cultura. Um Museu Comunitário tem outro objetivo: servir a comunidade e o seu desenvolvimento”. O Museu tem também cedido, por empréstimo, algumas peças do seu acervo a outras instituições.
Desta vez, estamos perante uma valiosa coleção de canecas, que a família do colecionador Dr. Rui Mesquita Oliveira entendeu confiar à guarda do Museu de Agricultura de Fermentões e que, a partir de 28 de Setembro de 2019, ficou à disposição do público em geral.

O colecionador
Rui Mesquita de Freitas Oliveira nasceu a 21 de janeiro de 1946 em Campanhã – Porto. Embora tenha passado parte da sua infância na Régua e de ter estudado na Universidade de Coimbra, onde se licenciou em Direito, o Porto foi sempre a sua cidade. Já adulto, criou uma ligação afetiva a Guimarães e apaixonou-se por uma Vimaranense com quem viria a ter duas filhas. Esta ligação a Guimarães acaba por se estender às suas gentes, à sua história e às suas tradições.
O desporto, a par da cultura, foi uma das suas grandes paixões. Praticante de várias modalidades desportivas, do futebol ao hóquei em patins, passando pelo ténis, foi no hóquei em campo que se destacou. Foi atleta federado desta modalidade no Sport Clube do Porto desde os 14 anos, estando ligado à conquista de mais de 10 títulos nacionais deste clube, onde desempenhou também funções diretivas. Fez parte da equipa que elaborou os estatutos do Vitória Sport Clube, instituição de que era sócio ativo. Quando adoeceu, o Dr. Rui Mesquita Oliveira doou a instituições sociais coleções de livros, que faziam parte da sua invejável biblioteca.
Faleceu em 16 de dezembro de 2014.2

A Coleção
Ao longo da sua vida, o Dr. Rui Mesquita Oliveira viajou por Portugal e pelo mundo com a sua família. Foi nessas viagens que iniciou a coleção de canecas, constituída, maioritariamente, por peças de artesanato. Desta coleção, fazem parte também algumas peças singelas que lhe foram sendo oferecidas com carinho por familiares e amigos. Curiosa escolha do colecionador, já que estamos perante um homem abstémio.
Após a morte do colecionador, sua mulher, Maria da Conceição Oliveira, e filhas, Mónica Sofia e Cláudia Maria, decidiram dar continuidade a esta vontade de partilha, disponibilizando o vasto e rico espólio de canecas ao serviço da cultura. Para isso, escolheram o Museu de Agricultura de Fermentões, em Guimarães, pela sua dedicação e empenho na divulgação cultural, instituindo este museu como fiel depositário deste valioso acervo.
Esta coleção é constituída por 383 canecas, maioritariamente de origem portuguesa, mas também por peças adquiridas em dezenas de países. Por outro lado, constata-se que muitas canecas foram produzidas artesanalmente e que algumas delas estão numeradas e assinadas pelo autor, facto que acrescenta autenticidade à coleção.
Assim, trata-se de uma coleção de grande qualidade, que vem enriquecer o Museu de Agricultura de Fermentões e que proporcionará ao visitante o contacto com outros povos e culturas diversas.2
Notas:
1 Ex-Diretor do ICOM e Membro do Conselho Científico do Museu de Agricultura de Fermentões.
2 Este texto foi escrito a partir de um documento elaborado pela família do Dr. Rui Mesquita.

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